*Rickson Souza
Corecon-RJ nº 28.444
Valuation e viabilidade econômico-financeira como instrumentos de prevenção da insolvência empresarial
Introdução
A elevada inadimplência e o crescimento dos pedidos de recuperação judicial e falência entre pequenas e médias empresas não são fenômenos isolados nem resultado exclusivo de crises econômicas. Em grande parte, esses eventos refletem decisões tomadas muito antes do colapso financeiro — decisões baseadas em intuição, percepção de faturamento ou necessidade imediata de caixa, e não em análises estruturadas de valor e viabilidade econômico-financeira.
Ao operar sem compreender quanto o negócio realmente vale, qual é sua capacidade sustentável de geração de caixa e qual nível de endividamento é compatível com seu risco, muitas empresas caminham, de forma silenciosa, da inadimplência à insolvência. Em um ambiente de crédito restrito e margens pressionadas, conhecer o valor do próprio negócio não é um exercício teórico — é uma condição para sua continuidade.
O retrato da inadimplência nas pequenas e médias empresas
Os dados recentes evidenciam a fragilidade financeira das PMEs no Brasil. Informações divulgadas pela Serasa Experian indicam níveis recordes de inadimplência empresarial, com forte concentração entre micro e pequenas empresas. Esse grupo responde pela maior parcela dos débitos em atraso, sobretudo aqueles relacionados a capital de giro, renegociações bancárias e linhas de crédito de curto prazo.
A inadimplência, nesse contexto, não surge como um evento isolado, mas como consequência de um desequilíbrio estrutural entre geração de caixa e compromissos financeiros assumidos. À medida que o fluxo de caixa operacional se torna insuficiente para cobrir despesas financeiras recorrentes, a empresa passa a depender de crédito adicional para sustentar suas operações — um movimento que tende a se intensificar ao longo do tempo.
Do endividamento à insolvência: um processo gradual
A falência raramente ocorre de forma abrupta. Na maioria dos casos, ela representa o estágio final de um processo cumulativo de deterioração financeira. Inicialmente, a empresa recorre ao endividamento para financiar crescimento, cobrir déficits temporários de caixa ou sustentar níveis de operação incompatíveis com sua estrutura financeira. Em seguida, passa a utilizar novas dívidas para honrar compromissos anteriores, elevando seu grau de alavancagem sem que haja expansão proporcional da geração de caixa.
Esse processo se agrava em cenários de juros elevados e restrição de crédito, nos quais o custo da dívida cresce mais rapidamente do que a capacidade operacional da empresa. A inadimplência deixa de ser um risco eventual e passa a integrar a rotina financeira do negócio, culminando em perda de acesso a crédito, renegociações forçadas e, em muitos casos, pedidos de recuperação judicial ou encerramento das atividades.
Capital de giro: o ponto de ruptura silencioso das PMEs
Em grande parte das pequenas e médias empresas, o primeiro sinal concreto de deterioração financeira não aparece no lucro contábil, mas no capital de giro. A insuficiência de recursos para financiar o ciclo operacional — pagamento de fornecedores, manutenção de estoques e cobertura das despesas correntes — leva muitas empresas a recorrer sistematicamente a linhas de crédito de curto prazo para manter suas atividades.
Esse comportamento cria uma ilusão de sustentabilidade: o negócio continua faturando, mas passa a operar com capital de giro estruturalmente deficitário. Sem uma análise clara da necessidade de capital de giro e da capacidade real de geração de caixa, a empresa utiliza dívida para financiar operações recorrentes, elevando seu risco financeiro e comprimindo margens por meio do aumento das despesas financeiras.
Nesse contexto, a inadimplência surge como consequência direta da má gestão do capital de giro. A incapacidade de sincronizar prazos de recebimento e pagamento transforma desequilíbrios temporários em problemas permanentes de liquidez, que tendem a se agravar em ambientes de crédito restrito e juros elevados.
A ausência de valuation e de análise de viabilidade econômico-financeira intensifica esse quadro, pois impede que o empresário identifique se o negócio é capaz de sustentar seu ciclo operacional com recursos próprios ou se está, na prática, destruindo valor ao crescer.
A ausência de planejamento financeiro como causa estrutural
Pesquisas conduzidas pelo Sebrae apontam que a deficiência na gestão financeira figura entre as principais causas da mortalidade das empresas brasileiras. Falta de controle de custos, desconhecimento das margens reais, ausência de planejamento e decisões de investimento sem análise prévia de viabilidade aparecem de forma recorrente nesses levantamentos.
Essas falhas revelam um ponto central: muitas empresas operam sem qualquer referência clara de valor. Sem valuation, o empresário não sabe se o negócio está criando ou destruindo valor, se o nível de endividamento é compatível com o risco assumido ou se determinado projeto de expansão é financeiramente sustentável. O resultado é a tomada de decisões estratégicas que, embora bem-intencionadas, aumentam significativamente a probabilidade de insolvência no médio prazo.
Valuation e viabilidade econômico-financeira como instrumentos preventivos
Nesse cenário, o valuation e a análise de viabilidade econômico-financeira deixam de ser ferramentas restritas a operações societárias e passam a assumir um papel preventivo na gestão empresarial. Ao transformar expectativas em fluxos de caixa projetados, riscos em custo de capital e decisões estratégicas em impactos mensuráveis sobre o valor do negócio, essas análises permitem identificar limites saudáveis de endividamento e antecipar desequilíbrios financeiros antes que se convertam em inadimplência.
Mais do que estimar quanto a empresa vale, o valuation fornece parâmetros objetivos para definir quanto ela pode crescer, quanto pode se endividar e quais riscos pode assumir sem comprometer sua continuidade operacional.
Gestão baseada em valor versus gestão reativa
Empresas que adotam uma gestão baseada em valor tendem a tomar decisões financeiras de forma prospectiva, avaliando impactos de longo prazo sobre o caixa e o risco do negócio. Já aquelas que operam sem valuation e sem análise de viabilidade costumam adotar uma postura reativa, respondendo a pressões imediatas de mercado ou liquidez.
Essa diferença de abordagem é determinante. Enquanto a gestão baseada em valor busca preservar a sustentabilidade financeira do negócio, a gestão reativa frequentemente posterga problemas estruturais, permitindo que a inadimplência se acumule até que a insolvência se torne inevitável.
Conclusão
A falência raramente é o ponto de partida; é o desfecho. O verdadeiro problema começa muito antes, quando o empresário confunde faturamento com geração de caixa, crescimento com criação de valor e crédito com solução estrutural.
A ausência de valuation e de análise de viabilidade não é apenas uma falha técnica — é uma vulnerabilidade estratégica. Operar sem conhecer o valor do próprio negócio é administrar no escuro, assumindo riscos cujo tamanho sequer foi mensurado.
Em ambientes de juros elevados e margens comprimidas, essa negligência se torna ainda mais custosa. Empresas que não medem valor acabam financiando a própria fragilidade.
Valuation, nesse contexto, não é luxo, nem formalidade: é disciplina financeira. E disciplina é o que separa empresas que atravessam crises daquelas que sucumbem a elas.
Referências
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*Rickson Souza é economista, graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduado em Direito dos Contratos pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Atua como avaliador de empresas independente e perito judicial, com experiência em finanças corporativas, valuation e perícia econômica.
Atualmente, é fundador da RKS Advisory, empresa de consultoria especializada em avaliação de empresas, planejamento financeiro pessoal e empresarial e elaboração de laudos de valuation. A empresa possui sede no Distrito Federal e atende clientes em todo o Brasil de forma remota, com foco em empresas de pequeno e médio porte.
Entre os serviços prestados destacam-se avaliação econômico-financeira de empresas, elaboração de laudos de avaliação para operações societárias e estruturais (incluindo SAFs, M&As, FIPs, FIIs, FIDCs, startups e venture capital), reestruturação empresarial, bem como avaliação de ativos tangíveis e intangíveis.
Entre 2022 e 2023, integrou a equipe da XP Investimentos, em São Paulo, na área de Asset Management Services, atuando na administração fiduciária de fundos de investimento regidos pela ICVM 555 e clubes de investimento, com foco em eventos societários (aquisição, fusão, cisão e incorporação) e cadastro regulatório.
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