Maurício Mota Saboya Pinheiro [I]
Corecon-DF nº 5261
Joscimar Souza Silva [II]
1. Introdução
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), por meio de sua Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia (Diest), conduzirá a pesquisa online intitulada “Usos de evidências por economistas no Brasil”. Esta busca entender, entre outras coisas, os papeis desempenhados por certos fatores (detalhados na seção 3) nas decisões de políticas macroeconômicas no Brasil contemporâneo. A pesquisa terá como público-alvo uma amostra de economistas, que trabalham não apenas como analistas e/ou autoridades de política (policymakers), mas que atuam profissionalmente em diversas áreas, nos setores público e privado.
Nesse contexto, o presente artigo tem por objetivo apresentar e justificar a metodologia do questionário (survey) que será usado na coleta dos dados da referida pesquisa. Por meio desse instrumento, intentamos construir um quadro de informações sistematizado, que aporte conhecimentos sobre os modos como economistas usam evidências no Brasil, embora nos interessem, de modo especial, os economistas que tomam decisões de políticas macroeconômicas.
A fim de viabilizar o trabalho de campo, o IPEA e o Conselho Federal de Economia (Cofecon), com o apoio técnico do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF), preparam um Acordo de Cooperação Técnica (ACT). Esse instrumento, além de conferir forte chancela institucional, que assegure confiança e adesão aos participantes da pesquisa, garante que o levantamento de dados respeite estritamente a Lei Geral de Proteção da Dados (LGPD) (Lei nº 13.709/2018).
Este trabalho estrutura-se como segue. Na segunda seção, apresentamos alguns fundamentos teóricos do uso de evidências em políticas macroeconômicas. Na seção 3, apresentamos a estrutura do questionário, com ênfase nos blocos temáticos de variáveis cujos valores pretendemos levantar junto a economistas registrados no Sistema Cofecon. Na quarta seção, será exposta a estratégia de campo, incluindo aspectos como: fonte dos contatos, procedimentos de abordagem ao público-alvo e a ética da pesquisa.
2. Fundamentos teóricos: fatores que afetam o uso de evidências em políticas macroeconômicas
Há diferentes padrões, normas e “culturas” de usos de evidências para orientar decisões e avaliações nos diversos setores de políticas públicas (Koga, Palotti & Mello, 2022). Não obstante, as políticas macroeconômicas ainda têm sido relativamente pouco estudadas sob a perspectiva das evidências empregadas na tomada de decisões. Trabalhos teóricos (Fiani, 2022; Pinheiro et al., 2025) têm problematizado os usos de evidências na macroeconomia. Todavia, sob uma perspectiva aplicada, faltam estudos sobre os instrumentos e modos com os quais policymakers tomam decisões na gestão das políticas monetária e fiscal, especialmente no Brasil.
Pinheiro et al. (2025) levantam a hipótese de que matrizes teóricas, escolas de pensamento e atitudes metodológicas desempenham importantes papeis nas formas como economistas empregam evidências em suas análises. Além disso, quando estes se encarregam da gestão das políticas macroeconômicas, suas escolhas podem ser afetadas por certos fatores contextuais. Alguns desses fatores dizem respeito às conjunturas econômicas e políticas (internas e externas), bem como aos arcabouços institucionais que condicionam as decisões de política (Pinheiro et al., no prelo).
Contudo, fatores relativos às biografias, carreiras profissionais e inclinações ou preferências pessoais dos economistas-decisores também podem influir no uso de evidências para orientar as políticas macroeconômicas. A razão é que o agente decisor dessas políticas possui uma história pessoal, bem como tem atributos identitários, conhecimentos, inclinações, crenças e valores. Nesse quadro, as evidências funcionam como instrumentos, que se põem a serviço de certos propósitos do policymaker, em suas decisões de política. Portanto, aqueles atributos pessoais são partes integrantes do processo decisório em política macroeconômica.
3. Conteúdo e estrutura do questionário
Dado o contexto teórico descrito na seção 2, desejamos medir a possível influência de certos fatores pessoais nas escolhas de políticas macroeconômicas, da parte de economistas que atuam profissionalmente no Brasil. Nesse sentido, o survey da pesquisa “Usos de evidências por economistas no Brasil” será empregado na coleta de informações que nos ajudem a compreender melhor as práticas, atitudes e critérios metodológicos empregados por profissionais da economia em suas atividades cotidianas, bem como no uso de evidências. Entender os papeis desempenhados pelas matrizes teóricas, escolas de pensamento, atitudes metodológicas e por determinados condicionantes contextuais – eis o propósito central da pesquisa de campo.
A Tabela 1 mostra os blocos temáticos, com respectivos números de perguntas, que estruturam o questionário da pesquisa.
Tabela 1: Estrutura do questionário da pesquisa “Usos de evidências por economistas no Brasil”.
| Parte | Bloco | Objetivo do bloco | Número de perguntas |
| 1 | Perguntas-filtro |
Selecionar apenas o público-alvo do questionário |
4 |
| 2 | Sociodemográfico |
Identificar o perfil dos respondentes, possibilitando o controle da amostra estratificada e análises inferenciais |
13 |
| 3 | Influências intelectuais |
Conhecer o perfil agregado das influências intelectuais dos economistas, possibilitando análises inferenciais |
2 |
| 4 | Uso de evidências para tomada de decisões em políticas macroeconômicas |
Levantar percepções sobre o uso de evidências em políticas macroeconômicas, considerando o público geral de economistas |
7 |
| 5 | Preferências metodológicas |
Conhecer o perfil agregado das influências metodológicas dos economistas, possibilitando análises inferenciais
|
3 |
| 6 | Tomada de decisão em macroeconomia |
Avaliar as percepções dos economistas que trabalham tomando decisões de políticas macroeconômicas ou as avaliando (exclusivo para esse segmento de economistas)
|
2 |
| 7 | Processos de obtenção de informação |
Levantar o consumo geral de informação pelo público dos economistas |
2 |
Fonte: elaboração própria.
O questionário coletará informações mutuamente complementares sobre vários temas, distribuídos em sete blocos de perguntas, indo desde as compreensões dos economistas sobre a economia como campo do conhecimento, suas formações e influências intelectuais, até suas crenças e valores pessoais. Destaque será dado a informações sobre a tomada de decisões dos que trabalham com políticas macroeconômicas, e sobre seus processos de obtenção de informação.
Espera-se que o desenho do survey permita a identificação de relações entre variáveis de vários tipos, de tal modo que possam ser testadas hipóteses sobre fatores condicionantes do uso de evidências por autoridades de política macroeconômica no Brasil contemporâneo. Especificamente, procuramos medir a influência de certos fatores pessoais no uso de evidências pelos economistas. Exemplos de tais fatores: 1) históricos acadêmicos (formação acadêmica ortodoxa ou heterodoxa); 2) áreas de atuação em economia; 3) outras variáveis sociodemográficas (gênero, localização geográfica, idade); 4) influências intelectuais (autores e escolas de pensamento); 5) o assunto, matéria ou tema das decisões (área de atuação profissional); 6) inclinações metodológicas (propensão ao monismo ou pluralismo metodológico); 7) acessos e preferências por meios de obtenção de informações (fontes oficiais de dados, grande mídia, redes sociais etc.).
4. Estratégia de campo
Trata-se de uma pesquisa amostral, cujo cadastro básico é construído a partir uma base de dados de contatos de economistas do Cofecon e Corecons. A base compõe-se de cerca de 230 mil indivíduos, atuantes nos setores público, privado e terceiro setor, bem como em uma variedade de setores de atividade e localizações geográficas. Será sorteada uma amostra estratificada dessa população-alvo, de grande tamanho (n = 1.527), permitindo inferências estatísticas com elevado grau de confiança.
O questionário é direcionado a pessoas com formação e experiência em economia, inclusive envolvidas em atividades de pesquisa e/ou funções de tomada de decisão em políticas macroeconômicas. Temos, então, dois subpúblicos: economistas em geral; e economistas policymakers. Essa distinção se justifica, porque diferem os padrões de usos de evidências por esses grupos – pois distintas atividades profissionais estão em jogo –, porém, espera-se que aqueles padrões sejam análogos em alguma medida.
Dada a especificidade da população, optou-se por um questionário autoaplicado, via e-mail de forma a permitir maior flexibilidade e liberdade ao respondente, possibilitando também acesso homogêneo ao público-alvo. A utilização de questionário via e-mail pode alcançar um número maior de respondentes, independentemente da localização, com melhor custo-benefício. Ademais, a ausência de um entrevistador pode reduzir o viés e permitir maior conforto ao entrevistado para respostas em temas sensíveis (Dillman, Smith & Christian, 2014).
A fim de motivar nossos potenciais informantes a responderem ao questionário, evitando assim baixas taxas de resposta e o não cumprimento da amostra, é necessário conquistar a confiança dos informantes. Para isso, precisamos persuadi-los de que informações individuais permanecerão sob sigilo – o questionário será não-identificado –, e que nossos métodos e instrumentos são seguros, evitando “vazamentos” de informações. Assim, na aplicação do questionário, deverá haver um processo de preparação e “sensibilização” dos informantes, para o que se requer interatividade entre a coordenação da pesquisa pelo IPEA, as instituições intermediadoras (Cofecon e Corecons) e os economistas filiados a essas instituições.
Uma forma sabidamente eficaz de se consolidar a confiança do público em uma pesquisa online é por meio de uma boa divulgação. Por isso, pretendemos divulgar amplamente a pesquisa “Usos de evidências por economistas no Brasil” nos canais institucionais de comunicação do IPEA, do Cofecon e dos Corecons. Nesse aspecto, é importante indicar um tópico de notícia sobre a pesquisa, tanto nos respectivos websites como nas mensagens a serem enviadas com o link do questionário. Procuraremos também informar as respectivas ouvidorias sobre a pesquisa, para que possam esclarecer eventuais dúvidas do público.
Por se tratar de um survey, sem identificação do respondente, a pesquisa dispensa avaliação por Comitê de Ética, conforme Resolução n. 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde (CONEP) – norma que regulamenta o Conselho Nacional de Ética em Pesquisa e os Comitês de Ética em Pesquisa.
Entretanto, em tempos de big data, inteligência artificial e desinformação, tem havido uma preocupação crescente com a ética em pesquisas de campo, pois a extração e o tratamento de informações pessoais podem incluir manipulações que causem danos à integridade e privacidade de pessoas. Logo, teremos de identificar com cuidado os dados sensíveis (pessoais) dos respondentes ao questionário, criando protocolos de segurança para que tais dados não sejam acessíveis sequer aos pesquisadores. Nesse sentido, é indispensável o consentimento livre e esclarecido pelos respondentes, o respeito à LGPD e outros normativos pertinentes.
5. Considerações finais
De um ponto de vista teórico, o processo decisório em política macroeconômica inclui inter alia os propósitos de ação do agente decisor (policymaker) e as evidências (informações) por ele utilizadas. Há um conjunto de referências implícitas (tácitas) que circundam a decisão do agente e que, de certa forma, dão sentido e explicam a decisão. Grande parte dessas referências diz respeito aos conhecimentos, crenças e valores do policymaker, bem como a outros atributos pessoais. Nas políticas macroeconômicas, aquele conjunto de referências implícitas compõe o contexto decisório dessas políticas. A pesquisa “Usos de evidências por economistas no Brasil” intenta precisamente levantar dados que nos ajudem a entender melhor os papeis desempenhados por certos fatores pessoais, seja dos economistas em geral, no exercício diário de suas atividades profissionais, seja dos policymakers, no contexto decisório de políticas macroeconômicas.
Em particular, os resultados do survey nos permitirão, entre outras coisas, construir uma base para testar a hipótese de que o uso de evidências para a tomada de decisões em política macroeconômica pelo economista se correlaciona com a formação acadêmica do economista, suas preferências metodológicas e influências intelectuais, seus meios de obtenção de informações, seu perfil sociodemográfico, dentre outras variáveis. Embora o desenho do survey não permita testes de hipóteses causais, de caráter explicativo e com alto grau de certeza, ele pelo menos possibilitará uma descrição mais precisa do fenômeno sob estudo, além do estabelecimento de inferências envolvendo relações entre variáveis de múltiplas ordens.
O desenho observacional do survey proposto é objetivo e exequível. Estrutura-se de forma lógica, com perguntas claras, sendo, ademais, o resultado de um planejamento de campo que prima pelas “boas práticas” desse tipo de pesquisa. Na verdade, o survey reflete a maturidade de uma longa reflexão prévia de pesquisa no IPEA sobre o uso de evidências em políticas públicas em geral, e sobre políticas macroeconômicas em particular.
6. Referências
CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE (CONEP). Resolução n. 510, de 7 de abril de 2016. Estabelece normas éticas para pesquisas em Ciências Humanas e Sociais, visando proteger os direitos dos participantes e garantir a integridade das pesquisas. Disponível em < resolucao-no-510.pdf> (Acesso em 03 de fevereiro de 2026).
DILLMAN, D. A.; SMYTH, J. D.; CHRISTIAN, L. M. Internet, phone, mail, and mixed-mode surveys: the tailored design method. Hoboken: Wiley, 2014.
FIANI, R. Políticas macroeconômicas baseadas em evidências são possíveis? A difícil relação da macroeconomia com as evidências empíricas. In KOGA, N., MELLO, J., PALOTTI, P. & PINHEIRO, M. (Org.). Políticas públicas e usos de evidências no Brasil: conceitos, métodos, contextos e práticas. Brasília: IPEA, p. 697-723, 2022.
KOGA, N. M.; PALOTTI, P. L. de M.; MELLO, J.; et al (Orgs.). Políticas públicas e usos de evidências no Brasil: conceitos, métodos, contextos e práticas. [s.l.]: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 2022.
PINHEIRO, M. M. S.; RECH, L. T. & POMPEU, J. C. B. O uso de evidências em macroeconomia: notas históricas e metodológicas. Brasília, DF: Ipea (Texto para Discussão; n. 3089), 2025.
PINHEIRO, M. M. S.; OCKÉ-REIS, C. O.; POMPEU, J. C. B.; BERTOGNA, J. P. S. & RECH, L. T. Decisões de política macroeconômica e uso de evidências no Brasil. Brasília, DF: Ipea (Texto para Discussão), no prelo.
[I] Economista registrado no Corecon-DF sob número 5261; ocupa o cargo de Técnico de Planejamento e Pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia (Diest) do Ipea; pesquisador colaborador pleno, junto ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Brasília (PPGFIL/UnB); e doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). E-mail: mauricio.saboya@ipea.gov.br. Telefone celular: (61) 98272-9514. Endereço profissional: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA. SEPS – Setor de Edifícios Públicos Sul 702/902, Bloco C, Centro Empresarial Brasília 50 – Torre B – 5º andar, pétala A – CEP: 70390-025 – Asa Sul – Brasília-DF.
[II] Professor no Instituto de Ciência Política da UnB. Doutor em Ciência Política pela UFMG. Compõe a diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (ABRAPEL). Coordena a Rede de Pesquisas em Comunicação Política e Opinião Pública da Associação Latino-americana de Ciência Política (ALACIP). E-mail: joscimar.silva@unb.br. Telefone celular: (77) 9997-6615. Endereço profissional: IPOL UnB. Campus Universitário Darcy Ribeiro, s/n. Asa Norte. Brasília-DF. CEP: 70910-900.
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