Correio Braziliense entrevista o economista Carlos Eduardo de Freitas, Presidente do Corecon-DF

Por linhas tortas
Coluna Correio Econômico, escrito por Paulo Silva Pinto.

“O Brasil está traçando a letra J. Com a ponta do lápis, vamos para baixo, por conta do choque fiscal e monetário, antes de subir de novo. E será preciso muito esforço para o país escrever o seu futuro até o topo.”

Quem não gostou da taxa de desemprego de março, os 6,2% anunciados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a maior em três anos, deve se preparar para uma notícia pior: até o fim do ano, ela vai crescer.
Chegará a 7,3%, na estimativa do economista-chefe do Bradesco, Otávio de Barros, que leva em conta o número com ajuste sazonal. Atualmente essa taxa está em 5,9%, com alta de 0,2 ponto em relação ao mês anterior.
É difícil fugir dessa rota no atual quadro de estagflação da economia brasileira. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá chegar a 8,25%, de acordo com a expectativa das instituições que mais acertam entre as ouvidas todas as semanas pelo Banco Central (BC) para o relatório Focus.
Diante de tal quadro, fica difícil imaginar que a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC termine hoje sem aumento de 0,5 ponto percentual na Selic, elevando-a para 13,25% anuais, algo apontado tanto pelas estimativas de analistas quando pelas apostas de ontem do mercado futuro de juros – o DI para janeiro de 2016 ficou em 13,51%.
Na próxima reunião, em junho, poderá vir aumento de mais 0,25, a depender do comportamento do dólar. Se a desvalorização da moeda norte-americana vista nesta semana for mantida, o BC terá espaço para carregar menos a mão nos juros.
Faz pouca diferença 0,25 ponto a mais ou a menos na Selic para este ano. Está garantida a recessão. Fala-se em queda de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no próprio governo e os analistas de mercado indicam, em média, redução de 1,1%. Os mais radicais chegam a um tombo de 1,5%.
Muita coisa acontecerá até dezembro, aqui e no mundo, portanto as estimativas vão ser continuamente revisadas até dezembro. Mas ninguém deve esperar uma metamorfose da tela cinza para um quadro róseo.
Com juros mais altos, o crediário fica mais caro, reduzindo as vendas e a produção. Há também incentivo para as pessoas pouparem em vez de consumir. E, com o corte de despesas no governo, se reduzem ainda mais os recursos na economia. No ano passado, o setor público teve deficit primário de 0,6% do PIB. Neste ano, a meta é de superavit de 1,2%.
Os assalariados estão sentindo no bolso o ajuste monetário e fiscal: houve redução de 2,8% na renda média do trabalho em março, para R$ 2.134,60. Foi a maior queda desde o janeiro de 2003. Não é à toa que a presidente Dilma Rousseff decidiu deixar de lado, pela primeira vez, o pronunciamento em cadeia de rádio e TV no Dia do Trabalho, depois de amanhã.
A situação é ruim, mas poderia ser pior, na avaliação do ex-diretor do BC Carlos Eduardo de Freitas, presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF). “O que o governo está procurando fazer é organizar o ajuste. Sem isso, o mercado iria fazê-lo de qualquer modo, sem organização, e o custo seria muito mais alto”, alerta.
A fuga de investimentos seria radical e o dólar dispararia. Em vez de encerrar o ano na casa de 8%, o IPCA chegaria a 12%. E o imposto inflacionário faria o seu serviço costumeiro de corroer a renda do trabalhador e de transferir recursos para o governo.
Freitas acredita que a aceitação do ajuste é muito maior hoje pela sociedade, de forma ampla, e pelas diferentes correntes acadêmicas. Isso ficou claro, diz, no simpósio “Desenvolvimentos Recentes da Teoria Macroeconômica”, promovido pelo Corecon há 20 dias na Universidade de Brasília (UnB). Economistas de linha ortodoxa, defenderam, é claro, o ajuste. Mas os chamados novos desenvolvimentistas, de linha keynesiana, também disseram que é indispensável equilibrar as contas públicas e derrubar a carestia.
Na avaliação de Freitas, a queda no emprego e da renda média do trabalho terá efeitos positivos. “Os salários cresceram muito mais do que permitia a produtividade. Estão caros. Certamente uma pessoa que perde o emprego acha isso péssimo. Mas ela vai conseguir outro, possivelmente ganhando menos”, explica.
Depois do ajuste, virá a bonança, certo? Talvez, mas nada é garantido. Isso acontecerá se os agentes econômicos tiverem confiança suficiente para investir no país, aumentando a capacidade produtiva tanto em volume quanto em qualidade.
Nada nessa campo, é garantido. Assim como não é certeza que o ajuste seja realizado de forma completa, consideradas todas as limitações políticas envolvidas, inclusive o fato de que foi uma escolha relutante da presidente Dilma.
O país está diante de uma situação de curva em jota. O lápis vai para baixo antes de subir. Para continuar o traçado até o topo, será necessário muito esforço de todos os brasileiros.

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