Grupo de Conjuntura: Síntese do debate sobre o tema "Os novos dados da economia brasileira e as perspectivas para 2014"

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Conselho Regional de Economia do Distrito Federal – Corecon-DF
Grupo de Conjuntura Econômica – relatório da Reunião nº 07/2013, realizada em 05/10/2013
Tema: Os novos dados da economia brasileira e as perspectivas para 2014

A reunião do Grupo de Conjuntura foi realizada no dia 05 de outubro, com o propósito de analisar “Os novos dados da economia brasileira e as perspectivas para 2014”. O debate teve quatro rodadas: a primeira analisou as mudanças na percepção externa do Brasil, a partir das críticas da revista britânica “The Economist” e da revisão na avaliação das agências de classificação de risco. O segundo bloco debateu os dados do desempenho da economia brasileira, em especial o “Pibão” do segundo trimestre, os dados da nova Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM) divulgada em 02 de outubro e as projeções do mercado e bancos para a economia. O terceiro analisou o crescente desequilíbrio externo brasileiro e sua forma de financiamento. O quarto bloco debateu as contas públicas.

No primeiro bloco, houve consenso em relação ao desencanto internacional em relação à economia brasileira e às principais empresas do país. Vários indicadores apontando nessa direção foram citados, com destaque para os fatos da semana, em que a Moody’s rebaixou em 02/10 de “positiva” para “estável” a perspectiva da nota da dívida do Brasil, que está em “Baa2”. A Agência cita a piora dos indicadores fiscais, a baixa taxa de investimento em relação ao PIB e “evidências de que a economia está caminhando para um período prolongado de baixo crescimento”. Em junho tinha sido a vez da S&P colocar o Brasil em perspectiva negativa. A Moody´s rebaixou também a nota de crédito da Petrobras por preocupações com o endividamento e o caixa negativo da empresa. O rating da petroleira, em escala global, foi reduzida de “A3” para “Baa1”, ainda grau de investimento e acima da nota da dívida soberana brasileira. Vários bancos brasileiros também tiveram alteradas pela Moody´s de positiva para estável a perspectiva de rating de depósitos de longo prazo em moeda local (e moeda estrangeira, para alguns) e de classificação de dívida, entre eles o Bradesco, Itaú Unibanco, Itaú BBA, Itaú Unibanco Holding, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Safra, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), HSBC e Santander.

A controvérsia entre os participantes, neste tema, foi a forma exagerada da “The Economist” na sua análise sobre a economia brasileira, que passou da euforia ao pessimismo. Em 2009, a capa mostrava o Cristo Redentor como um foguete ganhando altura, com a manchete “O Brasil decola” (“Brazil takes off”), representando a economia brasileira em acelerado crescimento. Agora, em 2013, em edições de julho e setembro, a Revista faz fortes críticas ao Brasil. Em 26/07, a avaliação negativa é das economias dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). A ilustração da capa mostra quatro atletas correndo na lama, com o título “A grande desaceleração” (“The great deceleration”) e o Brasil é o mais afundado. Em 26/09, a capa mostra o mesmo Cristo sem direção, desgovernado e em queda vertical. O título “O Brasil estragou tudo?” (“Has Brazil blown it?”) insinua um país sem rumo.

Para alguns participantes a Revista britânica, que “é uma publicação de inspiração liberal até prestigiada”, faz inferências pouco consistentes em relação à economia brasileira e, conforme colocado por um participante, “vem se destacando nos últimos tempos por manchetes e capas sensacionalistas”. Desde a posse de Dilma Roussef, vem promovendo campanha contra o Ministro da Fazenda e a própria presidente, sem embasamento.

Outro incômodo que apontaram foi o tom arrogante da matéria. Apelida nossa presidente de “Dilma Fernández”, em referência ao sobrenome da colega argentina. Esses participantes consideraram as propostas de redução do Estado equivocadas (redução de impostos e cortes de gastos), como também as críticas ao setor previdenciário brasileiro e às políticas sociais, porque feitas a partir de uma análise superficial. Foi reconhecido que as matérias sobre o Brasil levantam ainda questões menos controversas: altos custos para fazer negócios; baixo investimento em infraestrutura, “que é ruim”; riscos políticos; e o protecionismo no setor de petróleo. Esse quadro afastaria investidores externos em projetos de infraestrutura.

Outros presentes concordaram com a revista e acharam que a crítica irônica às autoridades brasileiras se enquadra no campo das “liberdades de expressão”. Na avaliação deles, a Revista destaca problemas sabidos e repetidos por muitos economistas brasileiros, alguns ligados ao Governo: o país está emperrado e a política econômica, sem rumo definido; a indústria brasileira tem baixa capacidade competitiva; a mão de obra é pouco produtiva, dado um sistema educacional de baixa qualidade; a infraestrutura é precária; e o Estado não tem capacidade de fazer os investimentos necessários, nem tem um modelo que mobilize investimentos privados para o setor – as concessões até ágora em parte fracassaram, caracterizadas por forte controle burocrático estatal e dúvidas quanto à segurança jurídica. O país, no campo econômico, estaria desgovernado, como insinua a imagem, e o país só não está na UTI por conta dos bons preços e a forte demanda de commodities.

No segundo bloco debateu-se o desempenho da economia brasileira. O crescimento do segundo trimestre (de 1,5% do PIB contra o imediatamente anterior) superou, e muito, as expectativas mais otimistas e veio acompanhado de avanço para todos os setores da produção e componentes da demanda, o que não ocorria desde 2010. Foram destacados o crescimento da agropecuária (3,9%) e indústria (2%) no trimestre, ressalvando-se que, no caso da indústria, novos dados de julho e agosto indicavam que o setor não terá comportamento significativo no terceiro trimestre; e a expansão consistente e elevada dos investimentos no primeiro e segundo trimestres (4,7% e 3,6%, respectivamente) – os dados positivos de investimento são reforçados pela Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM), que mostra crescimento de 13,5% de janeiro a agosto deste ano, com taxas positivas e altas todos esses meses. Entretanto, a Indústria Geral recuou no mês de agosto, após 4 meses de bom desempenho.

Um participante comentou as alterações significativas nos dados dos setores da economia a cada nova publicação do PIB trimestral e da PIM, o que gera um grau de incerteza sobre o real desempenho de cada setor. Foi citada a expectativa de revisão dos dados do PIB trimestral, com elevação do “Pibinho” do primeiro trimestre (0,6%) e redução do “Pibão” do segundo trimestre, mantendo-se no entanto a tendência observada desde o segundo trimestre de 2012.

Na avaliação dos participantes, o desempenho da economia em 2013 deve superar as previsões do mercado e do próprio governo, dado que a economia já supera 2% de crescimento no primeiro semestre. Mesmo que a economia permaneça estagnada no segundo semestre, o país cresce próximo das projeções atuais de 2,4% no ano. O segundo semestre deverá apresentar desempenho positivo e, para alguns, a economia pode até mesmo superar 3% de crescimento.

As expectativas do mercado para o crescimento do PIB em 2013 mudaram de tendência. Após 15 meses de revisões para baixo, passando de 4,5% (Focus/Bacen de 18 e 25/05/12) para 2,2% (23/08/13), nas últimas seis semanas, desde 23/08, a previsão de crescimento vinha sucessivamente sendo elevada: chegou a 2,47% em 04/10. Os departamentos econômicos dos principais bancos também ficaram mais otimistas após o resultado do segundo trimestre. O Bradesco projeta em 2,4% em 2013, com destaque para a Agropecuária (8%),  Indústria (2,2%) e Serviços (2,5%).

As projeções para 2014 continuam pessimistas, reforçando a avaliação negativa das agencias de classificação de risco. O mercado prevê crescimento do PIB de 2,2%. O Bradesco estima para 2014: PIB, 2,1%; Agropecuária, 4,0%; Indústria, 2,2%; e Serviços, 1,8%. Entre os presentes, faltou consenso para 2014, carregado de incertezas por ser ano eleitoral.

O terceiro bloco da reunião foi dedicado ao crescente desequilíbrio externo brasileiro. Os dados de setembro mostram no acumulado do ano a balança comercial deficitária em US$ 1,6 bilhão, com perspectiva de fechar o ano no azul, em torno de US$ 2,5 bilhões (Focus de 04/10), mas muito abaixo da previsão do início do ano (US$ 15 bilhões). O saldo em transações correntes continua despencando, no acumulado do ano (até agosto) negativo em US$ 58 bilhões, e de US$ (80,7) bilhões em 12 meses. A projeção do mercado é de exportações estagnadas (0,0%) e importações crescendo 7,6%, em relação a 2012. A projeção do saldo em conta corrente é negativa em US$ 77,8 bilhões; para o Bradesco serão US$ (81) bilhões.

Foi observado que problema maior está no financiamento desse desequilíbrio, cada vez mais concentrado no capital especulativo (IFE, investimento financeiro estrangeiro) e menos nos IED (investimentos diretos estrangeiros). A projeção de mercado para o IED em 2013 é de  US$ 61 bilhões.

As projeções para 2014 são de relativa melhora nos indicadores externos do país, dado que boa parte do resultado negativo da balança comercial em 2013 está sendo ocasionada pela redução expressiva das exportações de petróleo (queda até setembro de US$ 9,3 bilhões) e aumento de importações (US$ 5,7 bilhões). As projeções para as reservas internacionais (no conceito de liquidez) são de crescimento, de US$ 373,5 bilhões em 2013 para US$ 382,8 bilhões em 2014,  indicando que na opinião dos analistas o Brasil não terá dificuldades para financiar seu desequilíbrio externo crescente.

A controvérsia do grupo nesse tema foi em relação às projeções da taxa de câmbio. Para alguns participantes, o câmbio está com viés de baixa dado o mau desempenho da economia norte-americana e o adiamento do início do ciclo de aumento das taxas de juros naquele país. Nessa ótica, a saída de capitas do Brasil para os EUA não se efetiva e o câmbio cede.

Contas públicas foi o quarto assunto da reunião. Notou-se a clara deterioração dos indicadores fiscais, mas sem descontrole, já esperada por conta da política de desonerações de tributos promovida pelo governo federal e do impacto do baixo crescimento do PIB na arrecadação. A receita de tributos e contribuições federais se mantém relativamente estagnada em termos reais há 18 meses.

Os dados de agosto revelaram superávit primário acumulado em 12 meses até o mês em queda, e de apenas 1,82% do PIB, o menor desde 2002, exceção feita ao ano recessivo de 2009. Existe compromisso do governo federal, no âmbito do pacto pela “responsabilidade fiscal” anunciado em junho, de assegurar que o setor público poupe 2,3% do PIB. Há um relativo consenso que os governos regionais não vão cumprir com nem metade de sua parte na meta de superávit primário, estimada em R$ 47,8 bilhões. O reforço no contingenciamento do governo federal (R$ 10 bilhões) realizado no terceiro bimestre foi nesse sentido, mas já há uma ação do próprio governo para nova redução da meta de superávit de 2013. As projeções do mercado para o ano de 2013 são de superávit primário do setor público consolidado em torno de 1,7%.

Em relação ao endividamento público foi consensual a maior importância do indicador da dívida bruta, dada a política do governo de fortalecer a capacidade de financiamento dos bancos públicos, em especial do BNDES, com a emissão de dívida e empréstimo ao banco. Essa operação não impacta a dívida líquida do setor público. Em agosto de 2013 a Dívida Líquida do Setor Público estava em 33,8% do PIB e a Dívida Bruta do Governo Geral em 59,1% do PIB, e com tendência de alta desde 2010 (era de 53,4% do PIB). Ponderou-se, à vista de apresentação recente do Ministério do Planejamento, que Dívida Bruta do Governo Central cai para 41,6% do PIB, deduzido o valor das reservas internacionais.

Por fim, foi analisada a rigidez da despesa pública e a tendência de crescimento da despesa, apesar do contingenciamento. Alguns fatores novos foram destacados como determinantes do aumento dos gastos, além do aumento do salário mínimo, reajustes dos servidores, etc. Foi mencionada a inclusão no orçamento federal da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), com R$ 2 bilhões já gastos com subsídios à energia elétrica em 2013 e previsão de crescimento acentuado em 2014 (R$ 9 bilhões na proposta orçamentária).

Lista dos participantes:

  1. Augusto Hiromu Emori
  2. Carlito Roberto Zanetti
  3. Carlos Eduardo de Freitas 
  4. José Fernando Cosentino Tavares
  5. José Luiz Pagnussat
  6. José Roberto Novaes de Almeida
  7. Jucemar José Imperatori
  8. Maria Cristina de Araújo
  9. Mário Sérgio Fernandez Sallorenzo
  10. Mônica Beraldo Fabrício da Silva
  11. Túlio E. Marques
  12. Victor José Hohl

 

3 Comentários
  1. LUCIANO FERNANDES 4 anos atrás

    Quanto ao desencanto internacional com a economia nacional, acredito que o fator que desencadeou esse desencanto foi a contabilidade criativa da Secretaria do Tesouro Nacional, gerando desconfiança com os dados da contabilidade governamental. Essa mesma questão pode ser observada com relação ao endividamento governamental, devido ao apoio aos bancos oficiais. Isso não impacta a dívida no primeiro momento, mas no médio e longo prazo, tem impacto significativo devido a diferença entre os juros da dívida pública e os juros cobrados pelos bancos públicos em suas operações de financiamento.

    Por que esses debates não são tornados públicos antes de suas realizações?

    Por que apenas um grupo de privilegiados são convidados para participar? Será que eles são mais importantes que os demais economistas participantes do CORECON-DF? Não consigo entender o porquê dessa discriminação.

    Atenciosamente,

    LUCIANO FERNANDES

    • camila 4 anos atrás

      Prezado Luciano, todos os eventos do Corecon-DF e principalmente essas reuniões são, no mínimo, divulgados com duas semanas de antecedência pelos e-mails dos economistas, pelo nosso site e também pelo Facebook. Os debates são abertos a todos os economistas e o senhor será muito bem vindo na próxima reunião que com certeza será divulgado nos nossos canais de comunicação. Atenciosamente a Comunicação.

    • Carlos Eduardo de Freitas 4 anos atrás

      Prezado colega Luciano,
      Foi oportuno seu comentário. Aliás, concordo inteiramente com você e digo mais, o custo fiscal dos “empréstimos” do Tesouro ao BNDES vai além da diferença o que o Tesouro recebe de juros do BNDES e o que paga pela sua dívida mobiliária. Teria que verificar se essa diferença está devidamente refletida na contabilidade fiscal. Seria preciso que conhecêssemos os termos exatos dos contratos e seus significado além da movimentação financeira BNDESxTesouro, o que não sei até que ponto conseguiríamos. Porém, a grande maquiagem resulta do não reconhecimento dos aportes de recursos como despesas primárias, que de fato são, uma vez que representam capital de segunda linha, ou híbrido de capital e dívida. Não reúnem as características de liquidez requeridas para serem contabilizados como empréstimos normais e deduzidos da dívida bruta, falseando os valores da dívida líquida e do resultado primário.
      Agradeço seu comentário e aguardamos você na próxima reunião do Grupo de Conjuntura.
      Atenciosamente

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